A PROPÓSITO D’AS ESTRELAS.

APONTAMENTOS SOBRE A OBRA DE ANTÓNIO TORRADO*

 

 Maria do Sameiro Pedro*

 

Proponho-vos que, pelo menos durante os breves minutos que me estão reservados, nos deixemos guiar pela luz de uma estrela, anunciadora da fecundidade de um Autor que desde há largos anos é uma das vozes mais reconhecidas no panorama português da Literatura para Crianças e Jovens: António Torrado (1939-). Pela minha parte, para aqui chegar, e em alternativa, vim caminhando em direcção ao Oriente...; no entanto, suponho que, neste Encontro Ibérico, qualquer que tenha sido a direcção do nosso percurso, todos estaremos disponíveis a assumir a atitude de rei mago. Aliás e além do mais, estou segura de que tal desejo é legítimo sabendo que em Espanha o dia de Reis é simbolicamente muito mais forte do que nas práticas culturais portuguesas. Não nos demoremos mais a conhecer a boa nova que poderemos partilhar com o resto do mundo.

Nestes quatro dias tão propiciadores do alargamento de horizontes e da descoberta de novos mundos, proponho-vos o convívio com um dos mais reputados escritores portugueses para crianças e jovens. Com efeito, a prolixa obra de António Torrado vem-se afirmando desde os anos sessenta e concretiza uma capacidade imaginativa invulgar, numerosas vezes consagrada com prémios e outras distinções[1]. Aliás, esta capacidade tem dado origem ao exercício da actividade criativa em áreas multifacetadas; António Torrado não só tem escrito para crianças e jovens como também para adultos [2]-[3], além de ter desenvolvido estas áreas em funções variadas na televisão, bem como noutros meios de comunicação social[4], e no plano pedagógico[5].

Acrescente-se ainda que, para além da criação de narrativas originais ligadas à observação frequentemente irónica do quotidiano, grande parte do trabalho deste escritor tem tido por objecto a recriação de textos do património literário de tradição oral[6]. Aí revela-se, pelo menos implicitamente, um conhecedor profundo desta herança e das diversas versões de variados textos, alicerçando na pesquisa os fundamentos da reinvenção que, com maior ou menor grau de afastamento, exerce face às fontes[7]-[8]. Afinal de contas, cumpre o desígnio exposto no exemplar ensaio intitulado O Bosque Mínimo, de 1990: aproximar-se o escritor do contador, a literatura da oratura, recuperando simbolicamente a “infância da humanidade”[9].

Tal desejo de regresso às origens encontra também como corolário a profunda ancoragem deste Autor no conhecimento não só da literatura de tradição oral, mas também da literatura dita culta, movendo-se com à-vontade nas águas revoltas do cânone literário, sempre enquadrado no domínio dos contextos culturais pertinentes. Este saber permite-lhe investir naquilo que muitos reconhecerão como originalidade, na medida em que, através duma apurada técnica de escrita, estabelece nexos entre tradições e referentes por vezes díspares.

Assim acontece no trabalho que preside a As estrelas. Quando os três Reis eram Príncipes. Em meu entender, na larguíssima constelação da Obra de António Torrado, esta longa narrativa ocupa um lugar particular[10], como se porventura se tratasse de uma estrela de brilho ainda mais intenso do que as restantes. Assim e num primeiro plano, tal luz atrai-nos pelo trabalho aturado de erudição que subjaz à imaginação concreta de cada um daqueles que a tradição designa por Reis Magos. Nesta base e em larga medida, António Torrado expande as referências do texto bíblico, desenvolvendo um trabalho de reconstrução dos referentes necessários à interpretação dos dados expressos elipticamente[11].

Com efeito, António Torrado explora as virtualidades da infância de Gaspar, da juventude de Baltasar e dos primeiros passos na idade adulta de Melchior, construindo a sua novela[12] sobre a reinvenção da noção de estrela; ora, esta não é identificada com uma boa nova única e em termos absolutos, antes desmultiplica-se em estrelas variadas indicadoras de situações de aprendizagem a que se submetem os príncipes que, já com idade avançada e reis, partirão em direcção a uma mesma estrela, cada um de sua parte. Assim e reinventando fontes variadas, o Autor narra-nos circunstâncias das vidas destas personagens na sua juventude, centrando-se no momento em que eles se encontram e conhecem; não está, pois, em causa a adoração ao Deus Menino, uma vez que quando a narrativa termina os reis estão apenas de partida para Belém.

Vejamos este processo mais em detalhe. Melchior, príncipe arménio, pelos seus vinte e um anos e na companhia do seu aio persa, o mago Córdomo, encontra-se a cumprir uma prova de passagem à idade adulta de príncipe herdeiro que é: a “colheita de estrelas”. Esta, feita durante uma viagem pelo mundo, radica no princípio de que “para cada homem luz []uma estrela.” (p. 15). É nesta viagem que Melchior conhece Gaspar, ainda criança, filho de Atálido, rei dos Trácios, e o seu preceptor, o filósofo estóico Axiomos. Aí apaixona-se pela irmã mais velha de Gaspar, presenteando-a com a estrela que lhe é mais cara da sua colheita: Baltasar, um jovem de catorze anos, descendente da rainha de Sabá, príncipe comprado como escravo a um mercador de Damasco. Involuntariamente, Melchior não cumpre os desígnios adivinhados pelo mago Córdomo, o qual reconhecera duas estrelas fulgurantes: Baltasar e Gaspar. Melchior precipita a separação destas três personagens quando dispensa Baltasar, em oferta a Jasmina, objecto de um amor nascente. Na sequência destes desencontros, ao saber de um prévio compromisso matrimonial que envolve a sua amada, Melchior abandona a Trácia, ao mesmo tempo que, sentindo-se desprezado, Baltasar foge.

Muitos anos depois, com Melchior já chegado à velhice, os três príncipes entretanto reis, preparam-se involuntariamente para cumprir o que o mago Córdomo previra: o encontro das suas estrelas individuais, orientadas em direcção a uma nova estrela, de luz forte, anunciadora de um novo mundo e de um novo percurso de aprendizagem, a juntar a muitos outros precedentes. Baltasar recuperara o poder e um reino, Gaspar e Melchior, ainda reis mas desapossados de poderes efectivos, cada um de sua maneira, continuavam na busca dos saberes dos seus preceptores, Axiomos e Córdomo, respectivamente (cf. pp.61-64); contribuíam para a superação das posições antagónicas que estes tinham evidenciado aquando do seu encontro. De facto, ambos interpretaram as estrelas como vontades em movimento, quer enquanto a concretização de um desígnio divino, na perspectiva do mago (cf. p. 13), quer como o exercício da vontade humana, segundo o filósofo estóico (cf. p. 13 e p. 59).

Afinal, a estrela que sinaliza o presépio é apenas um elemento de uma constelação, reconhecida por diversas personagens, representativas de tradições culturais distintas. No entanto, longe de a considerarmos por tal facto diminuída, somos compelidos a compreendê-lo de feição precisamente oposta: ela mantém o seu fulgor e o seu fascínio de séculos. Acedendo ao encantamento da narrativa, reconhecemos uma perspectiva interpretativa que alarga os nossos horizontes, ou seja, os heróis do nosso imaginário, os três magos, mais não são do que aprendizes de um conhecimento que lhes escapa por completo, na medida em que não só está já presente na busca de saber dos seus antepassados, como também permite alcançar algo — uma estrela — que é apenas um elemento de um conjunto maior.

Como tivemos oportunidade de nos apercebermos no decurso deste longo resumo, António Torrado explora a tradição cultural, tradição esta que ultrapassa em larga medida a literária. Proporciona ainda aos seus leitores o contacto com uma novela de trama relativamente complexa quanto à sua construção, o que também faz supor o público juvenil como alvo, além das circunstâncias temáticas decorrentes de percursos de autoconhecimento[13]. Na verdade, todas as personagens d’ As Estrelas oferecem percursos de aprendizagem, os quais, pela sua diversidade e pela sua natureza complexa, congregam potencialidades enquanto modelos comportamentais associados a heróis em busca de autoconhecimento.

Como já anteriormente disse, esta obra parece-me ser inauguradora de uma nova vertente na produção deste Escritor, resultando de um trabalho criativo que excede em larga escala a recriação de uma(s) determinada(s) versão(ões) de um texto da tradição oral, sublinhando um elevado grau de erudição organizadora de uma capacidade inventiva inesgotável[14]. Não está aqui apenas em causa o facto de esta obra se dirigir preferencialmente a um público juvenil, mas a circunstância de a efabulação produzida a partir de uma matriz cultural complexa, de fontes escassas e distantes do grande público.

Chegados a este ponto, não posso deixar de sentir as tão necessárias quanto impertinentes imposições de tempo - limite às comunicações. Resta-me esperar ter escapado aos perigos de leituras demasiado redutoras e, para este Natal que se aproxima, apenas posso desejar-vos que a obra de António Torrado seja entendida por cada um de vós como uma estrela de forte luz no firmamento das vossas leituras. Assim e aceitando a máxima herdada por Gaspar do seu preceptor Axiomos ¾ “O homem é uma vontade em movimento” (p. 3, por ex.) ¾, estou certa de que cada um partirá em demanda da boa nova. Resta-me reiterar aquilo que o narrador d’ As Estrelas recomenda a Baltasar, Melchior e Gaspar: “Não se percam na viagem. Não demorem. Não se esqueçam de chegar.”(p. 65).

 

BIBLIOGRAFIA

ACTIVA

TORRADO, António

1996        As estrelas. Quando os três Reis eram Príncipes. Porto: Civilização. Ilustrações de Francisco Lança.

PASSIVA

BARRETO, Garcia

1998        Literatura para Crianças e Jovens em Portugal. Porto: Campo das Letras.

CENTINI, Massimo

1997        La vera storia dei Re Magi. Dall’Oriente alla ricerca del Re Bambino. Torino: Edizione Piemme.

COSTA, Maria José (org.)

1994        António Torrado. Porto: Civilização: 1995 (2ª ed. rev.).

DINIZ, Maria Augusta Seabra

1994        As fadas não foram à escola. A Literatura de expressão oral em manuais escolares do Ensino Primário (1901-1975). Porto: Asa.

FLORÊNCIO, Violante

1997        “Literatura para Crianças e Jovens”. In Vértice 79: Julho-Setembro: 24-28.

GOMES, José António

1991        Literatura para Crianças e Jovens. Alguns percursos. Lisboa: Caminho.

1998        Para uma História da Literatura Portuguesa para a Infância e Juventude. Lisboa: Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.

PEDRO, Maria do Sameiro

1997        “Contar com António Torrado”. In Vértice 79: Julho-Setembro: 110-114.

ROCHA, Natércia

1984        Breve História da Literatura para Crianças em Portugal. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa - Ministério da Educação: 1992 (2ª ed.).

1987        Bibliografia Geral da Literatura Portuguesa para Crianças. Lisboa: Editorial Comunicação.

TORRADO, António

[1974]a   “Aos pais e educadores”. In Sape gato lambareiro. Cadências infantis. Lisboa: Plátano: s.p.: Colecção “Lagarto Pintado” - 1. Ilustrações de Romeu Costa.

[1974]b   “Aos pais e educadores”. In Grão a grão...Provérbios. Lisboa: Plátano: s.p. Colecção “Lagarto Pintado” - 2. Ilustrações de Cecília Pinto.

[1974]c   “Aos pais e educadores”. In Se tu visses o que eu vi.... Lisboa: Plátano: s.p.: Colecção “Lagarto Pintado” - 8. Ilustrações de Romeu Costa.

[1976]     “Aos pais e educadores”. In Sarapico, pico, pico. Toadas e cadências infantis. Lisboa: Plátano: s.p. Colecção “Lagarto Pintado” - 3. Ilustrações de Romeu Costa.

[1976/7] “Aos pais e educadores”. In A velha Furunfufelha. Lengalengas. Lisboa: Plátano: s.p. Colecção “Lagarto Pintado” - 6. Ilustrações de Romeu Costa.

[1977]a   “Aos pais e educadores”. In O filho do Cerobico. Lisboa: Plátano: s.p.: Colecção “Lagarto Pintado” - 5. Ilustrações de Romeu Costa.

[1977]b   “Aos pais e educadores”. In Quem não trabuca...Provérbios. Lisboa: Plátano: s.p.: Colecção “Lagarto Pintado” - 7. Ilustrações de Cristina Malaquias.

[1977]c   “Aos pais e educadores”. In Lá vem a nau catrineta. Rimance popular. Lisboa: Plátano: s.p.: Colecção “Lagarto Pintado” - 9. Ilustrações de Carlos Barradas.

[1977]c   “Aos pais e educadores”. In A chave do castelo de Chuchurumel. Toadilha encadeada. Lisboa: Plátano: s.p.: Colecção “Lagarto Pintado” - 10.

[1984] “Aos pais e educadores”. In Fita verde no chapéu. Rimance popular. Lisboa: Plátano: s.p.: Colecção “Lagarto Pintado” - 12. Ilustrações de Romeu Costa.

[1985]     “António Torrado”. In SOARES, Luísa Ducla (org.): s.d.: A antologia diferente. De que são feitos os sonhos. Porto: Areal Editores: 171. Ilustrações de Vítor Simões.

1988a     Da escola sem sentido à escola dos sentidos. Porto: Civilização: 1994 (2ª ed.).

[1988]b   “Aos pais e educadores”. In Indo eu, indo eu...Rimances populares. Lisboa: Plátano: s.p.: Colecção “Lagarto Pintado” - 14. Ilustrações de Romeu Costa.

1990        O bosque mínimo. 10 anos de Encontros de Literatura Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa: Instituto de Apoio à Criança: Colecção “Cadernos IAC” -  2.

1995        “No rasto dos Reis Magos. Algumas considerações e divagações para leitores adultos”. In 1996: As estrelas. Quando os três Reis eram Príncipes. Porto: Civilização: 68-71. Ilustrações de Francisco    Lança.

1996        “Milhões de livros, biliões de vozes”. In Boletim Cultural - “Conto e reconto. As fábulas”. VIII Série: número 2: Maio: Fundação Calouste Gulbenkian - Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura: 5-8.

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* Comunicação apresentada ao 2º Congreso de Literatura Infantil y Juvenil. Historia Crítica de la Literatura e Ilustración Ibéricas, Cáceres, 3 a 6 de Dezembro de 1998.

* Professora-Adjunta da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Beja <sameiro@eseb.ipbeja.pt > <http://www.eseb.ipbeja.pt/sameiro/>.

[1] Não falando em periódicos, a obra de António Torrado é já constituída por largas dezenas de títulos. A sua extensa bibliografia, bem como a lista de prémios e menções honrosas, encontra-se organizada e publicada por COSTA: 1995: 8-18; esta organização é mais recente do que a incluída em ROCHA: 1987: 217-221. Parece assim cumprir-se o desígnio dos sapatos de verniz, isto é, a efabulação como forma de representar o conhecimento da vida e da escrita: “[...] Perguntam-me porque escrevo para vocês, meninos e meninas, rapazes e raparigas do meu país. Desculpem-me, mas só consigo responder, se trouxer para o meio desta conversa uns antiquíssimos sapatos de verniz. [...] — Não queres ir brincar para a varanda das traseiras? — perguntava-me a minha tia. Sim, talvez quisesse, mas os malditos sapatos de verniz apertavam-me tanto os pés... Ali me fiquei, de pernas a dar a dar, e olhos passeando pelas paredes da sala. Havia fotografias de senhoras ainda mais antigas do que a minha tia, quadros com cisnes e castelos, um biombo com um cortejo de elefantes, uma floresta, um templo, escadarias, varandas, torreões, flores gigantescas, borboletas com asas de madrepérola... Imaginei-me a voar no meio de tudo aquilo (a voar, claro, por causa dos sapatos apertados, já se vê!) e a inventar uma história desmiolada, com elefantes, florestas misteriosas, borboletas gigantes e outras coisas assim, nem dei conta que o tempo passava. Desconfio que foi a partir desta ocasião que comecei a inventar histórias, estivesse ou não com sapatos apertados.”: TORRADO: “António Torrado”. In SOARES (org.): s.d.: 171.

[2] Vejam-se as referências críticas de: COSTA: “O perfume das histórias” In COSTA (org.): 1995: 19-22; ROCHA: 1984: 96,100,105,107,116, 119; GOMES: 1998: 40-41, 44, 52-54, 56; TRAÇA: “O tradicional na obra de António Torrado”. In COSTA (org.): 1995: 23-30; BARRETO: 1998: 106-107.

[3] António Torrado tem uma posição crítica quanto à tão problemática quanto difundida expressão Literatura Infantil e Juvenil. Há alguns anos (em entrevista ao jornal A Capital, de 28 de Dezembro de 1984), defendeu o uso da expressão “Literatura de Audiência Infantil” , deslocando do texto para o público-alvo a especificidade existente em termos de comunicação literária. Nesta mesma linha interpretativa e sublinhando a necessidade deste público-alvo ser constituído por efectivos receptores do texto literário, e não apenas por meros destinatários, leia-se Juan CERVERA e a sua importante obra Teoria de la Literatura Infantil (Bilbao, Universidad de Deusto / Ediciones Mensajero, 1991, maxime p. 10 e ss.).

[4] Cf. breves apontamentos de BARRETO: 1998: 57-58, 88-89.

[5] Nesta perspectiva, veja-se metadiscurso do próprio em TORRADO: 1988, 1990 e 1996, a que não escapa sequer As Estrelas: TORRADO: 1995:68-71. É ainda digno de nota o seu labor enquanto co-autor de uma manual escolar, posterior ao 25 de Abril de 1974 (em parceria com uma outra escritora, Maria Alberta MENÉRES: [1976]: Livro Aberto. Lisboa: Plátano Editora), cujas inovações estão estudadas por DINIZ: 1994:140-155.

[6] Cf. em particular as pp. 11 a 13 da Bibliografia organizada por COSTA. É tão interessante quanto indispensável atentar nas palavras do próprio Autor, quer nas inúmeras notas “Aos pais e educadores” de alguns volumes da Colecção “Lagarto Pintado”, por si dirigida, da Plátano Editora, por exemplo, bem como no mais recente texto “Milhões de livros, biliões de histórias” (cf. 1996: 5-8), reiterador da sua posição quanto às relações entre a literatura institucionalizada e a literatura de tradição oral: “[...]E o que é a Literatura, avaliando todo o percurso da humanidade, senão uma recém-vinda, um meio de expressão relativamente recente para veicular invenções, idiossincrasias, fastos, ornamentos do espírito? Se até alguns dos primeiros escritores antologiáveis, um tal Homero, um tal Esopo, se confundem com as histórias e lendas que improvavelmente escreveram, de que vale estabelecer e entulhar sob o peso de milhões de livros o caudal imenso do património narrativo tradicional que, não obstante, resiste e brota em fontes de inspiração inesgotáveis? Será que a Literatura culta teme cotejos comprometedores?[...]” (p. 5). Daqui decorre uma posição consistentemente problematizadora da noção de cânone literário adstrito à literatura dita culta. Como tivemos oportunidade de referenciar na nota anterior, e tomando a Escola como um lugar consensualmente aceite de difusão do cânone literário cultural e politicamente instituído, não nos podemos esquecer que António Torrado e a sua mundividência têm responsabilidades também a este nível, enquanto Autor de manuais escolares e de textos de carácter ensaístico dirigidos a educadores.

[7] Por vezes, as circunstâncias da tradição são reinvestidas na construção de histórias originais, explorando a proximidade das figuras do Autor e do anónimo contador de histórias, do acto de leitura e do acto de ‘audição’; assim acontece, por exemplo, no volume de curtas narrativas Conto Contigo, mediante a intervenção de um narrador - contador, segundo processos que tive oportunidade de analisar em PEDRO: 1997: 110-114.

[8] De acordo com esta vertente de criação de António Torrado, veja-se a síntese feita por GOMES: 1991: 55-57.

[9] Cf. TORRADO: 1990: maxime 30-32.

[10] Acerca desta obra e do ano literário em que ela foi publicada, vide FLORÊNCIO: 1997: maxime 26-27.

[11] A perspectiva do Autor parece ser idêntica à seguida por CENTINI, num ensaio publicado em 1997: trata-se de seguir possibilidades exploratórias proporcionadas por uma tradição de séculos e de fontes variadas, tentando ler o texto bíblico canónico (Mt. 2, 1-12), reconstruindo os possíveis referentes dos contemporâneos de Cristo (cf. CENTINI:1997: 8-9).

[12] Estamos a tomar como pertinentes para a identificação de novela as seguintes características: o desenvolvimento da acção em ritmo rápido; a representação do tempo de forma linear, recorrendo muito pontualmente à analepse como forma de caracterização da personagem; a secundarização do espaço perante a preponderância das personagens. Ainda numa perspectiva de síntese e por todos, veja-se Carlos REIS e Ana C. M. LOPES: 1990 (2ª ed.): Dicionário de Narratologia. Coimbra: Almedina: maxime 293-296.

[13] A complexidade da novela em termos da sua organização textual exige um leitor perfeitamente desenvolvido em termos da sua maturação linguística, além de experiente no domínio do literário. Em termos temáticos, também As Estrelas interessam aos jovens, se tivermos em conta um modelo explicativo do desenvolvimento do imaginário como o de Kieran EGAN. Com efeito, EGAN (1979: Educational Development. Trad. Portuguesa: 1992: O Desenvolvimento Educacional. Lisboa: Publicações Dom Quixote) propõe uma classificação de estádios de evolução do imaginário dos indivíduos (o mítico, o romântico, o filosófico e o irónico), os quais evoluem de modo cumulativo, não chegando todos os indivíduos adultos a atingir o estádio irónico.  Tomando esta classificação como critério, As Estrelas adequam-se aos interesses dos indivíduos que se encontram no estádio romântico (dos 8/9 aos 14/15 anos) e no estádio filosófico (dos 14/15 aos 19/20 anos), em virtude de, respectivamente e em síntese, oferecerem figuras de heróis e modelos de processos de autoconhecimento. Acerca destes estádios em particular, vide na edição portuguesa as páginas 41-63 e 65-98.

[14] O posfácio de António Torrado indica fontes e alarga as pistas de interpretação do próprio texto (pp. 68, 69 e 71), reiterando a leitura de luz cristã, a qual interpreta os três reis como um símbolo do louvor de todas as partes do mundo ao Deus Menino, a partir da tradição estabelecida de um rei negro, de um rei asiático e de um rei europeu (p. 70). Cf., pois, TORRADO:1995: 68-71. Não nos podemos esquecer que António Torrado é um escritor experiente no domínio de fontes e do seu conhecimento aprofundado. Tal é evidente desde há largos anos, nomeadamente na excelente colecção “Lagarto Pintado”, já referida na nota 6. Ao longo de anos, aí desenvolve um coerente metadiscurso em torno da tradição oral e das suas relações com a literatura dita culta; vejamos brevemente o posfácio inaugurador da colecção e um dos últimos: “[...] foram as crianças, as várias gerações de crianças, quem se apropriou das irreflexões verbais, dos entrançados de palavras selvagens, das cega-regas encantatórias, que são as lengalengas, delas fazendo a sua poesia ou, pelo menos, a forma preambular de acesso à poesia e — convém destacar— à música. O carácter lúdico da linguagem infantil manifesta-se à evidência na lengalenga, como verdadeira poesia social da criança [...], como arco de ligação entre a linguagem prática e a linguagem poética ou regresso por via oblíqua ao uso afectivo e lúdico da língua. [...]” (TORRADO: [1974]: s.p.); “[...] A poesia anónima e popular, com tantas provas dadas ao longo do seu peregrinar pelas vozes, sentimentos e impulsos de largas gerações, oferece-nos, jubilosamente e intacta, a simplicidade de uma comunicação assente nos ritmos mnemónicos, por sinal os mais próximos da experiência física que a criança transporta consigo desde o berço. Se não minimizarmos, como adultos letrados, esta magnífica herança da oralidade, mantida generosamente à disposição das crianças, se não mistificarmos o encontro entre a criança e a sua e nossa genealogia poética, certamente que [...] a criança associará as cadências e rimances ao seu próprio repertório de vida, recuperando a poesia para o centro do seu universo pessoal.” (TORRADO: [1988]: s.p.).