Língua, Culturas
Por EDUARDO PRADO COELHO
Quinta-feira, 09 de Dezembro de 2004

O colóquio internacional sobre a língua portuguesa (com a participação de franceses, moçambicanos, angolanos, brasileiros, etc.), que tive a honra e o prazer de comissariar, e que teve a sua realização na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, possuiu o enorme mérito de mostrar que cerca de 1000 pessoas podem estar interessadas em seguir ou participar em debates desta natureza. Havia vários escolhos a evitar: tentar que as questões colocadas não reeditassem o debate entre pedagogos e Vasco Graça Moura; impedir que tudo se focalizasse na questão, sem dúvida que importante, da contraposição entre linguistas e literários; não falar de novo do acordo ortográfico; tentar que os debates se não convertessem na lamúria tradicional sobre a falta de condições nas escolas.

Como se tivesse sido combinado, nada disso aconteceu. Foi uma análise do percurso escolar e das etapas psicolinguísticas que o acompanham. Foi uma consideração matizada e por vezes irónica do efeito das novas tecnologias (e para a ironia contribuiu a presidência de Eduardo Lourenço, o mais antitecnológico dos intelectuais portugueses). Foi uma afirmação muito clara de um dado novo na sociedade portuguesa: a sua dimensão multicultural, com brasileiros, gente oriunda dos PALOP, mas que tem um domínio relativo das estruturas linguísticas portuguesas, imigrantes dos países de Leste. As múltiplas configurações linguísticas que personificam não podem deixar de ter consequências na imagem e na realidade do português, na medida em que todo o contacto com o outro altera o mesmo, que deixa de ser o mesmo, para passar a identificar-se com o outro. Só que o outro está já a identificar-se com o mesmo e deste modo o mesmo vai já a caminho de ser outro. O resultado final nunca chega a ser final, porque os dois se vão aproximando em função de um terceiro que é a incógnita deste processo.

Foi ainda a muito decidida proclamação da importância fundamental do ensino pré-escolar. É nestas idades que tudo se começa a formar e que estruturas, hábitos, rotinas se vão instalando no sujeito, de forma a darem ao sujeito a sua capacidade de ser sujeito.

Por entre elogios à acção do IPLB no campo das bibliotecas, e depois de uma verdadeira consagração do papel das bibliotecas públicas e das bibliotecas escolares, houve um ponto, levantado por Vítor Manuel Aguiar e Silva, que tem a ver com a publicação dos autores "clássicos": a actual colecção apoiada pelo IPLB não corresponde às expectativas dos leitores e estudantes e tem uma qualidade extremamente irregular. Nesse ponto, valeria a pena recomeçar o processo.

Por fim, todos concordaram com o princípio de que se não deve separar promoção da língua e promoção da cultura, e de que nesta área a arquitectura administrativa deveria ser completamente revista.

Para já, um projecto mereceu amplo aplauso: o da criação de um Observatório da Língua Portuguesa.

O entusiasmo do público mostrou como estes temas são mobilizadores.

<http://jornal.publico.pt/2004/12/09/EspacoPublico/O04.html>